
(nós estávamos no banheiro do shopping --')
-Carol, agora eh feerriaass *--*

(nós estávamos no banheiro do shopping --')
-Carol, agora eh feerriaass *--*
No meu planeta sou considerado quase uma anomalia - ou "especial" como meu pai gosta de falar obviamente porque o rei de Gotic Ville não pode ter um filho estranho. Mas na maioria das vezes me chamam de "Ridículo"; "Teletabis"; "Barney" ou qualquer coisa afetada e feliz que por aqui é considerada palavrão do mais alto nível - pois sou curioso e não gosto muito de nossa aparência pouco amigável - pele listrada de cores neutras; ataduras escondendo cicatrizes diárias; pescoço longo; franja tapando o olho direito - tem todo um blábláblá que o olho direito trás felicidade e por isso não deve ser mostrado, mas não sei ao certo o porquê disto - e uma felicidade tão contagiante que da vontade de se matar, embora o número de suicídios seja tão alto que nem tem mais graça pensar em fazê-lo -, menos pelas anteninhas, elas são legais. Realçam meus olhos.Todos por aqui recebem senhas ao nascer com três únicas iniciais possíveis: "E" (estranhamente estranhos); "M" (magnificamente tristes); "O" (ocultamente afeminados). Acredite se quiser a inicial "O" é uma das mais comuns entre os homens. Graças a Nossa Senhora Protetora das Anteninhas fui salvo dessa inicial e ganhei o nome de E66624 - não, não sou um demônio. Não sou gay, e nem um demônio gay.Um dia desses gastei todos os meus tristickets comprando uma maquina especialista em disfarces para ir a um planeta chamado Terra ou alguma coisa sem noção do gênero. Só comprei porque me disseram que um tal de Elvis usou e deu certo... Mas acho que fiz algo errado, pois me disfarcei de criança e cinco minutos após chegar a um país estranho - chamado Bra... Braphil? Braslim? Prafil? Ah, tanto faz. - fui assaltado. Revoltei-me de tal modo que resolvi descobrir um disfarce para poder andar pelo lugar em paz.Caracterizei-me de uma fêmea nativa e quase fui estuprado, mas continuei tentando. Tentei ser um repórter de terno preto e me agrediram; Disfarcei-me também de gay, mas começaram a gritar que um tal de Clodovil não havia morrido e achei melhor ir embora; Apelei até para um ladrão, mas começaram a me chamar de Sarnei, o que deve ser algum tipo de xingamento.Desisti e voltei para minha rotina de sempre no meu planeta de sempre: ter um pesadelo; acordar chorando; forçar o choro; chorar de raiva de um inseto intergaláctico; pisar no inseto; chorar por matar o pobre; chorar por ter chorado; sair de mau-humor; descontar nos outros; chorar por ter descontado nos outros; voltar para casa; jantar; e ir dormir.... Adivinhe! Sorrindo!Não, mentira. É chorando mesmo.
Tã dã, se você ficar um tempinho olhando contece coisas :ooo "Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem,
“Histórias Vividas”, uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que
engolia uma fera. [...] Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz,
com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Mostrei minha obra prima às pessoas
grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Respondera-me: “Por que é
que um chapéu faria medo?” Meu desenho não representava um chapéu. Represent
ava uma jibóia digerindo um elefante."
Eu estava distraidamente observando a vista pouco privilegiada enquanto o professor de geografia era alvo das bolinhas de papel que a turma toda achava legal encher de cola ou durex. O coitado é só um cara chato tentando explicar uma coisa chata e imprestável. É preciso fazer isso com ele?! O.K. Isso pareceu bem mais lógico na minha cabeça dividindo um pequeno canto do meu cérebro com a musica Gray Cow¹, que agitava os fones de ouvido que estavam disfarçadamente colocados na minha orelha - ah, qual é, o apocalipse ainda não chegou, geografia não poderia ocupar um cantinho maior da minha mente do que o dedicado a minha banda de rock favorita: The Pudim Of The Future²... O professor continuava tentando desviar das bolinhas jogadas até ele a toda velocidade e fazer-nos entender o conteúdo da vez - o qual eu sinceramente não sabia qual era, mas tinha alguma coisa haver com um mapa -, o que era impossível até para um ET - vamos combinar que ele chegava bem perto de ser um, mas isso não vem muito ao caso agora.
Todos tentavam ao máximo desviar o olhar do coitado, pois sabiam que seriam os únicos e o homem viraria para eles buscando um pouco de atenção não-assassina. Fiquei até com pena dele, mas aí começou o refrão de Gray Cow("Cow... Gray Cow! Gray Cow that gives green milk! Gray Cow that gives red shit"³) e esqueci completamente o assunto cantando inconscientemente o rock pesado e sem noção. O professor levantou da mesa em que havia se sentado ha algum tempo - juro que não tinha percebido esse fato - para flagrar meu colega jogando freneticamente no celular um jogo violento de ação chamado sushi encantado, o que foi uma surpresa geral e gerou uma pequena agitação de celulares e mini note books - sim, note books - rolando de volta para dentro da mochila.Bem na hora da musica em que a vaca tem um filhinho com cinco patas cor de rosa o professor voltou - não percebi que ele tinha saído também - com o celular e um copo d'água. Parecia bem alterado - pfff... E quando ele não estava?
Deixei a musica de lado e fui ver o que o cara ia fazer, assim como todos da sala. Quando cheguei a frente à mesa do professor - que já estava pronta para algum tipo de ritual macabro contra tecnologia - o mesmo foi atingido por uma bolinha de papel voadora diretamente no olho e começou a sapatear - parecia mesmo um samba meio improvisado - com as mãos no rosto até cair no chão desacordado - ele sempre desmaia quando alguma coisa acontece. Todos ficaram atônitos e o garoto do celular apanhou o aparelho e disse:
- Alguém quer jogar pudim encantado?